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A cultura americana e o cinema

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.05.16

 

 

Neste rio sem regresso navegam filmes do cinema americano que vi na infância na televisão a preto e branco, na adolescência no cinema, e mais tarde nos DVDs, nos CDs e nos canais por cabo.

O cinema americano serviu e divulgou a cultura americana mas também deixou as suas marcas culturais, uma certa inovação nas ideias e nos comportamentos, uma certa irreverância crítica, uma certa frescura a saber a futuro.

 

Peguei nesta ideia da influência mútua, cultura americana e cinema, para iniciar uma série no It Happens Every Spring, de um filme por semana até às próximas eleições americanas em Novembro. A ideia inicial era tentar perceber o fenómeno Trump. Como era possível esse fenómeno na América do séc. XXI? A verdade é que soma votos populares nas Primárias e segue para Bingo no partido Republicano.

A pouco e pouco, e ouvindo alguns experientes jornalistas independentes, comecei a vislumbrar a complexidade do fenómeno e a razão da sua popularidade. O fenómeno deve o seu motor ao próprio sistema político americano, à sua decadência, à sua adulteração, aos seus desvios democráticos. Os partidos deixaram há muito de representar os cidadãos para representar os grandes grupos corporativos, e tudo isto ficou mais visível depois de 2008 ao socorrerem os bancos (a finança, o mundo virtual) e deixarem na rua famílias inteiras (a economia, a vida real).

 

O primeiro filme desta série é um Preminger, The Man with a Golden Arm. O jazz acompanha as personagens, o ambiente claustrofóbico e decadente dos vícios, as terríveis dependências compulsivas que destroem a vida, os afectos, o futuro. O que salva Frankie é a amizade de Molly.

É interessante ver como a amizade é compassiva mas não é cobarde. A partir do momento em que se aceita arriscar o salto para o desconhecido, a privação de uma substância, o pesadelo será enfrentado pelos dois. São dois seres livres os que conversam calmamente nessa manhã.

A amizade talvez seja o afecto mais verdadeiro e genuíno entre pessoas livres. É isso que sobressai no filme. A manipulação egoísta e doentia que o espera em casa acaba por ser desmascarada. Os manipuladores são fracos, apesar de abusarem do poder sobre outros. 

 

 

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publicado às 20:52

A paz baseia-se no respeito por nós próprios e pelos outros

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.01.16

Foi a partir dos debates presidenciais que me surgiu este filme de Nicholas Ray, Johnny Guitar. Neste filme temos os heróis solitarios e corajosos, os malandros deste mundo, e o grupo que funciona como uma barreira a toda a vivacidade dos que pensam pela sua própria cabeça.

Cada geografia e cada época tem os seus heróis, os seus malandros e os seus grupos. Muitas vezes os malandros ganham aos heróis, outras vezes perdem. Os grupos, facilmente manipuláveis, ajudam os malandros pois preferem as personagens às pessoas reais, de carne e osso. 

Neste filme os heróis ganham, mas por um fio. Terão mesmo de se bater com os malandros nas suas condições e com as suas armas. Armas que nunca quiseram usar porque não são as suas. As suas armas são a inteligência, a criatividade e o respeito pelos que os rodeiam.

Tudo neste filme é cinema na sua cor magnífica, nos espaços, no enquadramento, nas sequências, no ritmo, nos diálogos. Nada está a mais, nada.

Percebemos, ao longo das primeiras cenas, o que está em jogo. A rivalidade e a obsessão de Emma por Vienna, que não são correspondidas. O desejo de Emma por Dancing Kid, também não correspondido. E um novo encontro, providencial para os dois, de Vienna e Johnny. 

O filme alerta-nos para nos mantermos atentos e vigilantes. Não basta vivermos em paz e respeitarmos os outros. Porque há sempre outros que não pensam nem vivem assim. Há sempre outros que, não sabendo viver em paz, interferem na paz de muitos.

 

 

 

 

 

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publicado às 15:57

A mentira banalizada e até institucionalizada

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.05.14

A verdade, a autenticidade, a integridade, não são muito valorizadas hoje. Ser verdadeiro consigo próprio e com os outros. A mentira está generalizada, de tal modo que é vista como uma qualidade comparável à criatividade nas relações humanas, para as tornar mais interessantes. Como se houvesse qualidade mais interessante do que a verdade, o que é genuíno e autêntico. E no entanto, a cultura actual desvaloriza essa qualidade atribuindo-a ao ingénuo, ao parvo, ao pateta, ao facilmente enganado.

 

Nesta Fogueira das Vaidades, filme que escolhi para falar destas qualidades ligadas à verdade, hoje tão desvalorizadas, vemos esse ingénuo (Tom Hanks), a sedutora e manipuladora (Melanie Grufith), o cínico oportunista (Bruce Willis, aqui também narrador), o pregador vaidoso e ganancioso, o conselheiro estratega e o político ambicioso, e nem a família da vítima atropelada escapa à espera da compensação final. Mas também vemos o amor incondicional e a lealdade do pai, e a voz da sensatez através do juiz a apelar aos valores humanos fundamentais da verdade, do respeito pelo próximo e da integridade.

 

Este filme também é uma lição sobre os jogos do poder a vários níveis e a sua indiferença perante os prejuízos e sofrimento que pode causar a pessoas concretas. É também uma lição admirável sobre a mentira, como alguns a vivem como regra essencial da relação com o mundo e os outros, e como outros defendem os seus princípios, a verdade e a lealdade, arriscando perder tudo o que define uma vida segura e confortável: o trabalho, o estatuto social, a casa.

O nosso herói (Tom Hanks) é colocado no meio desses jogos de poder que lhe são completamente alheios, dos quais não se apercebe sequer, e com os quais não foi preparado para lidar. As suas falhas humanas são próprias de quem cresceu e viveu num meio protegido. Mas o reverso da medalha é que um meio social privilegiado é muito mais exigente com os seus: uma falha que comprometa a imagem do grupo (família, círculo próximo) é logo dramatizada até à exclusão. Só o pai o apoia até ao fim: a prova da sua inocência em tribunal.

 

Já o narrador da história, o jornalista (Bruce Willis) que, apesar de ter percebido que o nosso herói é um joguete nas mãos dos vários elementos do poder, também o utiliza e à sua narrativa da desgraça, para se lançar como escritor premiado. Como ele próprio diz ao receber o prémio: perde a alma mas  há compensações. Refere-se o nosso cínico escritor à visibilidade e dinheiro, outras formas de poder.

  

Vale a pena rever o filme pelas personagens e pelos actores, mas o que fica da mensagem do filme é resumido neste discurso do juiz (precisamente Morgan Freeman) antes do veredicto final:

 

 

  

 

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publicado às 23:29

A atmosfera de Leave Her to Heaven lembra-nos as obsessões das pessoas habituadas a manipular todos à sua volta para conseguir o que querem. Geralmente estragam a vida aos que com eles convivem ou que caem na sua teia. Tal como no Sunset Boulevard, é a lógica da mosca e da aranha. Pensei em Sunset Boulevard pelas semelhanças da loucura do manipulador, pela ausência de vitalidade, de sentimentos, de afecto. Só que aqui a personagem, também escritor, salva-se no final, mas não sem passar um mau bocado.

 

O manipulador está geralmente numa posição de aparente poder. Digo aparente porque esse poder é alucinado, não é real. Mas o que mais surpreende é a ingenuidade dos que se deixam enredar na teia da manipulação emocional.

Personagens narcísicas que não gostam de ser contrariadas, que se julgam o centro do mundo, que desconfiam de tudo e todos, e que eliminam quem consideram um obstáculo, aqui de forma premeditada. E o obstáculo é qualquer pessoa que ocupe a atenção da pessoa-objecto da sua obsessão. E pior ainda se for alguém que seja querido pela pessoa-objecto da sua obsessão. 

A atmosfera do filme acompanha o tecer dessa teia. Quase a sentimos a formar-se à volta das personagens, da casa, do escritor. Os afectos familiares são afastados, uns de forma brusca outros de forma trágica, até ao isolamento de uma vida onde só cabem dois.

 

Quando alguém manipulador, logo incapaz de amar porque amar não é controlar e limitar, percebe ou pressente o amor genuíno em outros, o ódio que daí nasce é destruidor. Aqui trata-se de uma vingança que possa impedir a felicidade de outros. Se eu não te posso ter ninguém pode, é a lógica.

O que o manipulador não percebe é que não é uma questão de posse. Ama-se quem é livre de nos amar ou não. O amor surge naturalmente, de forma natural, familiar. Apoiam-se um ao outro, animam-se, inspiram-se.

 

A cena final é uma das minhas preferidas. Depois de todas as atribulações e sofrimento, o encontro no lago (adoro lagos e são sempre cinematográficos). Ele vem a remar um barquinho, ela espera-o ansiosa, no seu vestido branco, no pequeno cais de madeira. Abraçam-se. E vemos aquele céu sobre eles e sobre nós.

 

 

 

 

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publicado às 00:10

Valores humanos fundamentais: a autonomia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.12.12

O último valor humano fundamental desta série que aqui coloco a navegar neste rio, nesta época de reflexão, é a autonomia. O primeiro foi a liberdade. Mas da liberdade à autonomia tivemos de passar pelos outros valores que a formam: responsabilidade e bondade, ou simples empatia, respeito pelo próximo.

No fundo, autonomia é próprio da maturidade do adulto, que já aqui colocámos a navegar. A autonomia é a resposta da maturidade, é a atitude da responsabilidade. Não depende de pressões ou orientações de outros, depende apenas da consciência do próprio. O adulto autónomo põe os valores da vida em primeiro lugar e só depois considera as outras variáveis.

 

A autonomia é esse patamar, por isso é que existe uma diferença entre liberdade e autonomia: a liberdade é dada ou conquistada, a autonomia é aprendida e ensaiada pelo próprio. Esse ensaio é a fase da rebeldia, a adolescência.

Neste The Little Foxes, igualmente dos anos 40, e que já está a navegar neste rio a propósito da linguagem do poder, vemos como uma rapariguinha aprende com o pai a atitude correcta do respeito pelos outros e ensaia o caminho da autonomia. Vemos a sua coragem ao enfrentar a mãe e o seu ascendente manipulador. A cena final das escadas, a mãe que olha para baixo, para a filha, e esta que olha para cima, para a mãe, é simplesmente extraordinária. É um William Wyler, não esquecer.

Por momentos pensamos que a rapariguinha vai ceder, tão triste pela morte do pai, tão subitamente sozinha, mas a sua voz e o seu olhar dizem tudo. Há os que se apropriam do território, destruindo tudo à sua passagem, e há os que ficam a ver. Ela não vai ficar a ver.

Reparem na última imagem da mãe na janela a vê-la partir, com o namorado, duas figurinhas na noite chuvosa. O seu olhar parece mais assustado do que confiante. Quem afinal vai enfrentar a solidão e os fantasmas do passado e do presente é quem se baseia na linguagem do poder, na manipulação e na ganância.

 

 

 

 

 

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publicado às 21:26

É possível resistir à linguagem do poder

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.07.08

 

O que mais impressiona em The Little Foxes é a linguagem do poder e da manipulação, perfeitamente visível num clã sulista, os Hubbard, comandados pela irmã (magnífica Bette Davies).

Esta mulher dominadora tentará domesticar a filha como pensa ter domesticado o marido. Pura ilusão, este homem suave e de saúde frágil segue valores sólidos, dos quais não irá abdicar nunca. Sim, ao marido terá mesmo de o neutralizar.

É que para conseguir levar a cabo os seus planos ambiciosos, esta mulher utiliza todos os recursos possíveis da paleta: insinua-se, seduz, manipula e recorre à chantagem. É assim que consegue dominar o seu pequeno mundo: os irmãos, o sobrinho e, por arrastamento, a cunhada. O grande negócio está prestes a ser conseguido. O acesso à alta sociedade da grande cidade também.

 

É certo que a filha (comovente Teresa Wright) já mimetiza, de certa forma, os seus tiques de snobismo e de arrogância. Mas no final serão os valores do pai e do namorado que prevalecem, sobre a influência materna. Sim, a filha resiste-lhe no final e escolhe o caminho da vida real, dos afectos e do respeito pelos outros.

Impressionante confronto entre uma Bette Davies subitamente solitária, subitamente assustada, no cimo da escadaria, e uma comovente Teresa Wright em baixo, no "hall", a olhar para cima, tão jovem, tão doce, tão magoada, e no entanto, tão forte, a despedir-se da mãe.

Trata-se da opção pela vida, pela liberdade, pela autonomia. Aqui vemos o perfeito contraste com a linguagem do poder, da manipulação, da dependência. É esta, a meu ver, a ideia central do filme. O mais forte é, no final de contas, o mais fraco; o que pensávamos mais fraco é afinal, o mais forte.

 

Mas não nos iludamos: a linguagem do poder, na sua voracidade insaciável, faz estragos. O amado pai da nossa jovem jaz, morto, lá em cima, no seu quarto. E por pouco também ela própria se podia ter deixado enredar na terrível influência materna e ter-se transformado numa sua segunda versão, anulando todas as possibilidades de crescer, de se autonomizar, de se afirmar de forma saudável, de amar e ser amada.

Na cena final vemo-la com o namorado, pelo pátio exterior da casa, na noite chuvosa. Numa das janelas, o rosto impressionante da mãe, a vê-los afastar-se.

 

 

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publicado às 15:13


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